Síndromes Adrenais
Domine a fisiopatologia, o diagnóstico e o manejo clínico das principais doenças das glândulas suprarrenais — do hipocortisolismo ao hipercortisolismo.
Anatomia e Histologia
Localização, estrutura e suprimento vascular das glândulas suprarrenais
Apostila — Anatomia e Histologia das Glândulas Adrenais
▾As glândulas suprarrenais são glândulas endócrinas pares, de cerca de 3 a 6 gramas cada uma (em média 4g), com 2 a 3 cm de largura e 4 a 6 cm de comprimento. A glândula direita tem forma piramidal ou triangular, e a esquerda, semilunar ou alongada. Alguns dos hormônios produzidos pela suprarrenal são essenciais à vida.
Cada suprarrenal se localiza na face superomedial do rim correspondente. A suprarrenal direita projeta-se um tanto posteriormente à veia cava inferior. As glândulas suprarrenais localizam-se nos polos superiores dos rins, retroperitonealmente, de cada lado da coluna vertebral, entre a 11ª vértebra torácica e 1ª vértebra lombar.
Cada glândula suprarrenal compreende dois componentes endócrinos distintos: o córtex e a medula. O córtex suprarrenal produz hormônios esteroides, importantes na manutenção do balanço eletrolítico e no metabolismo de proteínas e carboidratos. A medula produz adrenalina e noradrenalina, cujos efeitos se assemelham àqueles resultantes do sistema nervoso simpático.
O suprimento sanguíneo deriva de diversas pequenas artérias — ramos terminais das artérias frênica e suprarrenal, ocasionalmente da ovariana e da espermática esquerda. A veia suprarrenal direita drena diretamente para a veia cava inferior, enquanto a suprarrenal esquerda drena para a veia renal do mesmo lado. A inervação é autonômica, com fibras parassimpáticas originadas na cadeia celíaca e no tronco vagal.
Biossíntese Hormonal
Zonas do córtex adrenal e seus respectivos produtos hormonais
Controle eletrolítico
Metabolismo e estresse
DHEA, Androstenediona
Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal
Regulação fisiológica e mecanismos de feedback dos corticosteroides
Hipotálamo → CRH → Hipófise → ACTH → Adrenal → Cortisol → Feedback negativo sobre hipotálamo e hipófise. O eixo HHA é o controlador da síntese e liberação de todos os corticosteroides.
Apostila — Regulação do Eixo HHA
▾O eixo fisiológico hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) é o controlador da síntese e liberação dos corticosteroides. Todos os corticosteroides deste eixo são produzidos a partir de um precursor comum, o colesterol, e são sintetizados no córtex da glândula adrenal.
Os núcleos supra-ópticos e paraventriculares hipotalâmicos produzem o fator liberador do hormônio adrenocorticotrófico (CRH), que controla a secreção de ACTH pela hipófise anterior. O ACTH, por sua vez, é responsável por estimular a secreção dos glicocorticoides pela zona fasciculada.
O eixo HHA é dirigido pela concentração plasmática dos hormônios do eixo por um mecanismo de feedback negativo: o aumento anormal das concentrações de cortisol modifica o eixo, reduzindo a secreção de CRH e ACTH. Da mesma forma, a queda do cortisol ativa o eixo, estimulando a liberação compensatória de CRH e ACTH.
O cortisol tem funções diversas no metabolismo: função catabólica, equilíbrio eletrolítico, metabolismo de carboidratos, lipídeos e proteínas. É liberado principalmente em resposta ao estresse e é o responsável pela gliconeogênese e ativação de vias anti-inflamatórias.
Insuficiência Adrenal — Doença de Addison
Hipocortisolismo: causas, diagnóstico e manifestações clínicas
Destruição do córtex adrenal com falência de cortisol e aldosterona. ACTH plasmático elevado (>100 pg/mL) por perda do feedback negativo.
Deficiência de ACTH (hipofisário) ou CRH (hipotalâmico — terciária). Apenas o cortisol é deficiente; a aldosterona é mantida pelo SRAA intacto.
Cansaço, fraqueza e depressão inexplicáveis • Anorexia e perda de peso • Tontura e hipotensão postural • Náusea, vômito, diarreia • Hiponatremia, hipoglicemia, anemia normocítica, linfocitose e eosinofilia.
Apostila — Quadro Clínico e Investigação da Insuficiência Adrenal
▾A falta crônica de glicocorticoides leva a vários sintomas inespecíficos: mal-estar geral, apatia, inapetência, perda de peso, náusea, vômitos, dor abdominal e diarreia. A hipoglicemia pode ser uma manifestação inicial. Quando há também deficiência de mineralocorticoides (IA primária), hipotensão, síncope, desidratação e choque cardiocirculatório, com hiponatremia e hipercalemia, podem se associar ao quadro.
Na mulher, a IA resulta em perda dos pelos pubianos e axilares. Pacientes com IA grave ou de longa duração podem apresentar mialgias, artralgias e sintomas psiquiátricos (perda de memória, delírio, depressão, psicose).
O achado de hiperpigmentação (excesso de ACTH) indica causa primária (presente em ~90% dos casos). A presença de vitiligo e candidíase mucocutânea sugere etiologia autoimune. A IA primária autoimune pode estar associada a outras endocrinopatias imunológicas, constituindo a síndrome poliglandular autoimune.
Investigação Laboratorial: Cortisol < 3 µg/dL confirma IA; > 19 µg/dL a exclui. Valores entre 3 e 19 µg/dL requerem teste de estimulação com ACTH sintético (1 ou 250 µg). ACTH > 100 pg/mL sugere IA primária; < 100 pg/mL sugere IA secundária.
Crise Adrenal
Insuficiência adrenal aguda — emergência endócrina
A crise addisoniana pode ser precipitada por infecções, traumas ou cirurgias em pacientes com reserva adrenal comprometida. O choque hipotensivo é a manifestação dominante — causado por depleção de sódio e volume plasmático. Febre + dor abdominal difusa pode mimetizar abdome agudo cirúrgico (fatal se operado sem tratamento hormonal).
Síndrome de Cushing
Hipercortisolismo: classificação, etiologia e manifestações clínicas
Hipercortisolismo = expressão laboratorial (cortisol elevado). Síndrome de Cushing = expressão clínica. A Doença de Cushing (adenoma hipofisário) representa ~70% dos casos de SC endógena. Incidência: 13 casos/1.000.000/ano; mulher:homem 8:1.
| Manifestação Clínica | Incidência | Frequência |
|---|---|---|
| Obesidade (centrípeta) | Muito frequente | |
| Alterações neuropsiquiátricas | Muito frequente | |
| Hipertensão arterial | Muito frequente | |
| Pletora facial / Fácies de lua cheia | Muito frequente | |
| Hirsutismo | Muito frequente | |
| Distúrbios menstruais | Muito frequente | |
| Osteopenia / Osteoporose | Muito frequente | |
| Intolerância à glicose / Diabetes | Frequente | |
| Estrias violáceas largas (>1cm) | Frequente | |
| Fraqueza muscular proximal | Frequente | |
| Infecções fúngicas | Frequente | |
| Impotência / Diminuição da libido | Frequente | |
| Hiperpigmentação | Apenas ACTH-dep. | |
| Calculose renal | Ocasional |
Distribuição anormal de gordura (fossas supraclaviculares, temporais, interescapular = gibosidade búfala) • Fraqueza muscular proximal • Estrias purpúreas largas (>1cm) • Interrupção do crescimento linear com ganho contínuo de peso (em crianças). A hiperpigmentação ocorre apenas nas formas ACTH-dependentes.
Apostila — Fisiopatologia e Quadro Clínico do Hipercortisolismo
▾A síndrome de Cushing resulta de exposição prolongada a níveis suprafisiológicos de glicocorticoides circulantes, tanto endógenos quanto exógenos. Embora rara (incidência de 1:100.000/ano), é uma situação devastante com morbidade e mortalidade que exigem terapêutica rápida e eficiente.
O aumento do cortisol interfere em uma série de fatores: déficit de crescimento (cortisol antagoniza IGF-1 na faixa de crescimento), estrias largas e violáceas, pilificação e hirsutismo, seborreia, acne, hiperemia facial, proteólise e perda de massa muscular, imunossupressão, desmineralização óssea, tendência ao diabetes, hipercalciúria e cálculo renal, e apatia (porém agitação psicomotora ocorre com dose alta/aguda).
Nos ossos, os glicocorticoides reduzem a densidade (osteoporose) pelo prejuízo na síntese de tecido osteoide. Este efeito predomina nos ossos trabeculares, poupando a cortical dos ossos longos — diferentemente do hipertireoidismo, que causa maior perda de osso cortical.
A Doença de Cushing (adenoma hipofisário secretor de ACTH) é a principal causa de SC endógena (70%), mais comum no sexo feminino (8:1) e com início entre 15–50 anos. Pode ocorrer hemianopsia bitemporal por compressão do quiasma óptico — investigada com campimetria visual. A identificação da fonte de ACTH pode demorar muitos anos, pois os corticotropinomas são frequentemente muito pequenos (<6mm).
Diagnóstico do Hipercortisolismo
Testes bioquímicos, dinâmicos e investigação etiológica
Confirmar Hipercortisolismo
CLU, TSD de 1 mg, cortisol salivar noturno. Nenhum teste isolado é 100% definitivo.
Dosar ACTH Plasmático Basal
ACTH indetectável ou suprimido → SC ACTH-independente (tumor adrenal). ACTH inapropriadamente elevado → SC ACTH-dependente.
Diferencial: Doença de Cushing vs. ACTH Ectópico
TSD de altas doses (8 mg): supressão >50% favorece Doença de Cushing. Coleta bilateral de seios petrosos (cateterismo): gradiente >2 basal ou >3 pós-CRH confirma fonte pituitária.
Imagens
Adrenais: TC de cortes finos (RMN menos sensível). Hipófise: RMN com contraste (visualiza ~60% dos corticotropinomas, diâmetro médio 5,6 mm). ACTH ectópico: TC tórax/abdome.
A hipocalemia acompanha o hipercortisolismo na Síndrome de Cushing — diferente da Doença de Addison, onde ocorre hipercalemia. Na maioria dos casos de Cushing, o ACTH é normal ou suprimido, indicando tumor adrenal primário, produtor de cortisol e independente do ACTH.
Tratamento
Abordagem terapêutica das síndromes adrenais — cirúrgica e clínica
| Glicocorticoide | Duração | Dose Equiv. | Ef. Mineralo. | Meia-Vida |
|---|---|---|---|---|
| Hidrocortisona | Curta | 20 mg | 1 | 8–12h |
| Cortisona | Curta | 25 mg | 0,8 | 8–12h |
| Prednisona | Intermediária | 5 mg | 0,2 | 12–36h |
| Prednisolona | Intermediária | 4 mg | 0,2 | 12–36h |
| Metilprednisolona | Intermediária | 4 mg | 0 | 12–36h |
| Triancinolona | Intermediária | 4 mg | 0 | 12–36h |
| Betametasona | Prolongada | 0,5 mg | 0 | 24–72h |
| Dexametasona | Prolongada | 0,75 mg | 0 | 24–72h |
Apenas hidrocortisona, cortisona e fludrocortisona possuem efeito mineralocorticoide clinicamente relevante. Dexametasona, betametasona e metilprednisolona não repõem aldosterona — não devem ser usados como monoterapia na IA primária.